A promessa de medicamentos desenhados por inteligência artificial já rendeu bilhões em anúncios, mas poucas empresas chegaram de verdade ao estágio clínico. A BigHat Biosciences, de San Mateo, na Califórnia, é uma delas. Em 24 de setembro de 2026, a companhia concluiu uma Series C de US$ 75 milhões co-liderada pela DFJ Growth e pela Premji Invest, elevando seu total captado para US$ 223 milhões. O dinheiro vai financiar a próxima fase decisiva: levar seus dois candidatos a medicamento até os resultados clínicos que vão validar, ou não, toda a tese da empresa.
O elenco da rodada chama atenção pela composição. Além dos fundos de venture, participam os braços de investimento de três gigantes da indústria farmacêutica: Eli Lilly, Merck (via Global Health Innovation Fund) e Amgen Ventures. Quando os potenciais concorrentes entram no capital, o sinal sobre a tecnologia costuma ser forte.

O que a BigHat Biosciences faz
Fundada há cerca de seis anos e comandada pela cofundadora Peyton Greenside, a empresa projeta proteínas terapêuticas, principalmente anticorpos, com aprendizado de máquina treinado em dados que ela mesma gera. A plataforma combina IA autônoma com um laboratório experimental que produz dados biológicos proprietários em escala, no volume e na qualidade que os modelos de fronteira exigem.
A distinção é o coração da tese. Enquanto a maioria das biotechs de IA depende de dados públicos ou de parcerias para alimentar seus modelos, a BigHat construiu o próprio ciclo: o laboratório gera dados, os dados treinam os modelos, os modelos propõem moléculas, e o laboratório testa as moléculas, gerando mais dados. A The Pharma Letter resumiu o posicionamento em uma frase: o argumento da empresa é menos sobre os modelos e mais sobre os dados que os alimentam.
O portfólio clínico tem dois protagonistas:
- BHB810 — anticorpo conjugado direcionado ao CDH17 para cânceres gastrointestinais, um dos primeiros biológicos desenhados por IA a chegar à clínica.
- BHB299 — segundo candidato, também avançando para leituras clínicas importantes.
A validação externa já existe em forma de contratos: colaboração estratégica concluída com a Johnson & Johnson, três projetos com a Merck e parceria com a Eli Lilly. Em junho de 2026, a empresa reforçou a liderança científica com Stefan Weigand, ex-chefe de pesquisa de grandes moléculas da Roche, como diretor científico.
“Os biológicos raramente falham na clínica porque não conseguem se ligar ao alvo; falham porque não têm as propriedades que transformam uma molécula promissora em um medicamento de verdade”, explicou Marc Martin Casas, vice-presidente de biotecnologia da Premji Invest, ao justificar o investimento.

A escada de captações
- 2020 a 2024 — rodadas iniciais com 8VC e Andreessen Horowitz entre os primeiros apoiadores.
- 2025 — extensão da Series B de US$ 44 milhões, liderada por investidores farmacêuticos e estratégicos.
- Setembro de 2026 — Series C de US$ 75 milhões, total de US$ 223 milhões, com 16 investidores na mesa, incluindo Catalio Capital Management, LG Technology Ventures, Sigmas Group, Quadrille Capital e Section 32.
Por que essa rodada importa
- Os dados viraram o fosso. Os modelos de IA se tornam commodity a cada lançamento, e o gargalo do design de proteínas mudou para a qualidade dos dados experimentais. A BigHat aposta que o laboratório autônomo é o ativo difícil de copiar, não o algoritmo.
- A indústria farmacêutica votou com o caixa. Lilly, Merck e Amgen nos dois lados da mesa, como investidoras e como clientes, é o tipo de validação que venture puro não compra.
- O setor ganha um teste real. Se o BHB810 entregar bons resultados clínicos, a categoria de medicamentos desenhados por IA ganha seu marco histórico, do mesmo jeito que a aprovação de um primeiro medicamento define um campo inteiro.
O que observar daqui pra frente
Os resultados clínicos do BHB810 e do BHB299 são o marco que separa narrativa de ciência. Em paralelo, vale acompanhar a conversão das parcerias com J&J, Merck e Lilly em novos contratos, que sustentam a plataforma enquanto o pipeline avança, e a expansão do modelo de parcerias com empresas de tecnologia, citado por Greenside como parte do plano.
Opinião sobre investimento
Nota: 6,5/10. A BigHat tem o que poucas biotechs de IA exibem: produto em clínica, receita de parcerias com big pharma e um fosso de dados que se acumula a cada programa. A lista de investidores, com os braços de Lilly, Merck e Amgen, funciona como due diligence implícita. Os riscos, porém, são próprios da indústria. O primeiro é binário: ensaios clínicos falham, e um resultado negativo do BHB810 descontaria boa parte da tese da plataforma junto. O segundo é o tempo: biotecnologia opera em horizontes de anos, e o capital de venture nem sempre tem essa paciência. O terceiro é a concorrência silenciosa das próprias farmacêuticas, que montam times internos de IA e podem internalizar o que hoje terceirizam.
Para fundos especializados em biotech, é uma das apostas mais bem estruturadas da categoria de IA aplicada a medicamentos. Para quem busca exposição indireta, o melhor termômetro será o preço do próximo IPO do setor, e a BigHat tem perfil de candidata.
Fontes
- Business Wire — comunicado oficial da rodada
- BigHat Biosciences — anúncio oficial no site da empresa
- The Pharma Letter — BigHat Biosciences closes $75 million Series C financing
- The Pharma Letter — perfil da empresa e tese dos dados
- Dealroom — BigHat Biosciences raises $75M Series C for AI-designed drugs
- BioSpace — reprodução integral do comunicado
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