Broadcom empresta até US$ 42 bilhões à Anthropic e redesenha o xadrez dos chips de IA

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O prospecto do IPO da Anthropic, publicado nesta quarta-feira (1º), revelou o acordo mais revelador do setor até agora: a Broadcom concordou em emprestar até US$ 42 bilhões para a dona do Claude alugar seus chips. A nota conversível financia cerca de um terço do compromisso de US$ 125,2 bilhões que a Anthropic fechou para lease de capacidade de TPUs por cinco anos. E o arranjo tem um detalhe que muda o jogo: a dívida pode ser convertida em ações da própria Anthropic, com a Broadcom podendo designar um parceiro de financiamento para estruturar a operação.

O documento do IPO expõe uma teia de parcerias com as grandes empresas de tecnologia, mas nenhuma tão profunda quanto a da Broadcom, que atua simultaneamente como fornecedora de processamento, locadora de equipamentos e banqueira da startup.

Broadcom. A empresa sai como a grande ganhadora da jogada. Além de cobrar juros sobre US$ 42 bilhões, a nota conversível dá a ela a opção de virar acionista da Anthropic quando o IPO acontecer. E o prospecto indica que a Anthropic deve se tornar o maior cliente do negócio de design de chips da Broadcom já no ano que vem. É fornecedor, credor e acionista em potencial ao mesmo tempo, o triplo papel mais rentável possível na cadeia de IA.

Anthropic. A startup garante financiamento de longo prazo para sua expansão de processamento sem esgotar o caixa, com condições que nenhum banco tradicional ofereceria. O prospecto também confirma que a empresa não pretende vender as notas antes de concluir o IPO, sinal de que a estrutura foi desenhada para o mercado público. A Anthropic anunciou em abril uma parceria expandida com a Broadcom e o Google que garante múltiplos gigawatts de TPUs de nova geração a partir de 2027, seu maior compromisso de processamento até hoje.

Google. As TPUs, chips que o Google desenvolve junto com a Broadcom há várias gerações, ganham o cliente mais cobiçado do mercado de IA. Cada dólar que a Anthropic gasta em TPUs é um dólar que valida a alternativa da Alphabet aos chips da Nvidia.

Nvidia. O golpe é duplo. A Anthropic, cliente de primeira linha, compromete US$ 125,2 bilhões em chips concorrentes. E a Broadcom demonstra, na prática, o que a Nvidia só promete: no acordo com a Anthropic, a Broadcom respaldou mais de 80% de uma estrutura de US$ 35 bilhões, enquanto a Nvidia oferece garantia residual de apenas 25% no seu plano de US$ 500 bilhões, que os banqueiros questionam publicamente desde ontem.

O plano de financiamento da Nvidia. A revelação chega no pior momento. Um dia depois de a Reuters documentar a resistência de Wall Street às garantias da Nvidia, a Broadcom mostra que é possível estruturar financiamento agressivo para clientes de IA, desde que a empresa credora tenha convicção no ativo. O contraste transforma a Broadcom no padrão de comparação que a Nvidia não queria.

Investidores do risco circular. A teia de acordos circulares se espessa: a Broadcom financia a Anthropic, que aluga as TPUs desenvolvidas com o Google, que é investidor da própria Anthropic. Cada elo do circuito fortalece os demais, e quem compra exposição a esse ecossistema assume o risco de que toda a cadeia dependa da mesma demanda se sustentando.

O IPO da Anthropic é o próximo marco, e o prospecto agora funciona como raio-X financeiro do setor. Vale acompanhar três pontos: o preço final da oferta, que vai precificar quanto o mercado paga por uma empresa com dívida de US$ 42 bilhões atrelada ao fornecedor; a reação da Nvidia, que pode ser forçada a ampliar garantias para competir; e a execução do lease de TPUs a partir de 2027, que vai medir se a alternativa da Broadcom e do Google entrega na prática o que promete no papel.

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