A Nvidia voltou a escrever seu nome no topo da história do mercado acionário. Nesta sexta-feira (2), as ações da fabricante de chips subiram 2,9% e bateram recorde, algo que não acontecia desde maio. Com a alta, o valor de mercado da companhia encosta nos US$ 6 trilhões, cerca de R$ 31,4 trilhões na conversão direta, consolidando a posição de empresa mais valiosa do mundo.
O combustível da alta, segundo a Bloomberg, veio de um lugar inesperado: o Muse AI, agente de inteligência artificial da Meta lançado no início de setembro. O bom desempenho do produto elevou o ânimo do mercado, e investidores passaram a buscar empresas que produzem data centers, processadores e componentes para a infraestrutura de IA, a categoria onde a Nvidia reina com cerca de 80% do mercado de chips de ponta.

As reações
A euforia do lado comprador. O analista Dan Ives resumiu o otimismo em rede no dia 1º de outubro: para ele, a Nvidia pode alcançar os US$ 6 trilhões de valor de mercado, e o movimento de novos projetos e parcerias no setor de IA sustenta a trajetória. A tese tem lastro nos números: em maio, a empresa registrou lucro de US$ 58,3 bilhões no primeiro trimestre fiscal de 2026, alta de 211% sobre o ano anterior.
A defesa da própria Nvidia. Jensen Huang, CEO, vem construindo há meses a narrativa de que o poder computacional da empresa é um ativo durável. “O poder computacional de IA é um ativo produtivo, durável e fungível que pode sustentar financiamento de longo prazo”, afirmou a empresa em nota nesta semana, depois que banqueiros questionaram o plano de financiamento de US$ 500 bilhões. Na teleconferência de resultados de setembro, a CFO Colette Kress foi além: “Vemos de forma diferente. Estamos passando por uma grande mudança de plataforma de computação, a criação de uma das tecnologias mais importantes da história humana”.
O ceticismo dos veteranos. Nem todos compram a festa. Michael Burry, o investidor de “A Grande Aposta”, classificou as garantias da Nvidia para a OpenAI como sinal de alerta de financiamento circular, “assobiando no cemitério”. Jim Cramer, da CNBC, comparou o momento à bolha da internet. E Gary Tan, gestor da Allspring Global Investments, sintetizou a dúvida central: “Os investimentos e parcerias da Nvidia reforçam a confiança nas construções de longo prazo de IA, mas os investidores seguem preocupados com o financiamento circular”.
A voz fria das agências de rating. Andrew Chang, diretor da S&P Global Ratings, reconheceu que as GPUs da Nvidia funcionam bem além de cinco anos, mas fez a ressalva que resume o embate: “Temos uma visão conservadora do valor desses chips”.
A ironia que virou profecia. “Os GPUs são mais difíceis de encontrar do que drogas”, brincou Elon Musk em evento do Wall Street Journal em 2023. Três anos depois, a frase virou descrição literal do mercado: a demanda por chips continua superando a oferta, e cada novo agente de IA lançado, como o Muse, adiciona mais pressão à fila.

O contexto por trás do recorde
O Muse AI é um assistente projetado para executar ações em nome dos usuários, acessando contas e informações em aplicativos de e-mail, agenda, pagamentos, saúde, compras e casa inteligente. O sucesso do lançamento reacendeu a aposta de que os agentes de IA serão o próximo grande ciclo de consumo de processamento, e quem fornece os chips fica na frente da fila.
A Nvidia também carrega o peso de ser o centro de praticamente todo o ecossistema: Microsoft, Google, Amazon, Meta e Spotify estão entre seus clientes, e o ChatGPT, segundo a TrendForce, exige cerca de 30 mil GPUs para funcionar. A fabricação fica a cargo da TSMC, em Taiwan, o que mantém a cadeia inteira refém da estabilidade geopolítica do estreito de Formosa.
O que observar daqui pra frente
A marca de US$ 6 trilhões é questão de tempo se o rally continuar, mas o teste real vem dos resultados do terceiro trimestre fiscal e da evolução do plano de financiamento de US$ 500 bilhões, que os credores seguem pressionando por garantias maiores. Se a demanda por agentes de IA se confirmar em consumo de processamento, o recorde de hoje pode ser apenas mais um degrau. Se o entusiasmo esfriar, a empresa mais valiosa do mundo terá muito a perder, e o mercado inteiro junto.
Fontes
- G1 — Ações da Nvidia batem recorde e empresa se aproxima de valer US$ 6 tri
- Yahoo Finance — Nvidia could reach a $6 trillion market cap, Dan Ives explains
- Reuters — Nvidia’s bet that its chips can finance the AI boom gets a Wall Street reality check
- CNBC — Jim Cramer warns AI’s circular financing frenzy echoes the dot-com bubble
- Los Angeles Times — Nvidia’s $750-billion AI bet deepens fears of a circular tech bubble
- Benzinga — Michael Burry points to Nvidia’s $105B OpenAI guarantee as circular financing red flag










